Guest Post #2: Da advocacia para a tradução

Para a segunda postagem de 2017, trago o meu segundo guest post aqui no Traduzindo a Dublagem. Desta vez, meu convidado é um amigo e colega de profissão que, da advocacia, veio parar na tradução para dublagem. Quem diria, não é? Quer saber um pouco mais sobre a jornada dele? É só chegar! 😉

Com o intuito de trazer sempre novas vozes para o blog, de modo que os leitores tenham contato com opiniões dos mais diversos profissionais, cada um com a sua história, o convidado deste mês de janeiro é meu amigo e colega, Murillo Maldonado. Caso você ainda não tenha conferido o primeiro guest post, é só clicar aqui.

O relato do Murillo é muito inspirador, pois reflete uma realidade que muitos passam: a migração de uma carreira estável para outra desconhecida, no caso, a tradução para dublagem, área na qual ele atua desde 2014 e onde vem construindo o seu caminho passo a passo. Entre alguns de seus trabalhos no mundo da dublagem, temos a tradução da série The Last Kingdom, o longa Race, e metade da série Berlin Station e da série A História de Deus, com o ator Morgan Freeman.

Espero que o relato dele te inspire e não se esqueça de deixar o seu comentário! Um grande abraço, boa leitura e até o próximo post! 😉

Murillo Maldonado

Murillo Maldonado

“Você já acordou de manhã e se perguntou se está na profissão certa? Já voltou de férias, depois de um mês maravilhoso em uma praia paradisíaca, sentou na sua escrivaninha e achou que aquilo era um desperdício de tempo e de vida? Já olhou para o seu amigo da escola e achou que o trabalho dele era muito mais divertido? Provavelmente você respondeu “sim” em algumas das perguntas acima. Bom, eu também. Muitas e muitas vezes.

Eu sou um caso clássico: estudei numa boa escola, fiz um bom pré-vestibular, mas não tinha a menor noção do que queria fazer da minha vida. Escolhi Direito faltando uma ou duas semanas para a inscrição no vestibular, em 1997, e escolhi porque parecia uma profissão legal, onde eu usaria terno, leria muito e ficaria rico – quem sabe seria até Juiz. Parecia legal. Mas não foi. Nada contra a carreira, nada contra quem gosta, mas não era pra mim. E olha que eu insisti. Fiz ótimos estágios em pelo menos quatro áreas diferentes, me formei entre os primeiros da turma, passei para a Escola de Magistratura – um dos cursos mais concorridos do País – fui Juiz Leigo e tive escritório.

Mas realmente não era pra mim. Eu acordava todo dia sem a menor vontade de trabalhar. Ficava irritado cada vez que um cliente me ligava – e olha que isso significava dinheiro – e cheguei ao ponto de pensar em jogar tudo pro alto e fazer outra faculdade. Isso desde 2004, quando me formei, e 2013. Quase dez anos de carreira. Em novembro de 2013, eu estava esgotado. Não me importava com o dinheiro (que não era tanto, já que eu não me dedicava), nem com os concursos (já que eu detestava ter que estudar um assunto que não me interessava) e, um dia, fui assistir a minha namorada dublar.

No meio de uma gravação, o texto tinha um erro, uma coisa boba em uma expressão, e eu corrigi rapidinho pro diretor. Ele agradeceu e perguntou se eu já tinha pensado em traduzir para dublagem. Eu disse que podia ser legal, e ele me levou pra fazer um teste com o Diretor de Tradução do estúdio. O diretor era gente boa e me mandou um teste, que no caso foi um trecho de um episódio da série “My Cat From Hell.” Era moleza. Eu enviei o material, mas não recebi resposta.

Bom, eu era só advogado. E advogados trabalham com prazos. Prazos curtos. Não receber resposta, pra mim, era o mesmo que escutar “valeu, mas ficou uma porcaria.” Entenda bem, eu sei inglês. Fiz o curso quando era novo, e fui até o fim. Terminei, passei na certificação de Cambridge, aprendi muito com os videogames, com os livros de RPG, e com os filmes. Meu inglês era mais do que o suficiente. Então, por que fiquei sem resposta?

A vida seguiu e em setembro de 2014, recebi um e-mail do estúdio explicando que a tradução tinha ficado boa e me oferecendo mais trabalho. Eu topei na hora e nunca mais parei. Parece uma história legal, fácil, cheia de sorte, mas não foi. Quando você muda de profissão, é como nascer de novo. Você não está acostumado com o ritmo, com as pessoas e com o estilo de trabalho. Eu não podia fazer feio para não ser tachado como amador.

Então fiz o que eu sempre recomendo para quem quer começar em qualquer área: estudei. Fiz todos os cursos que você puder imaginar. Estudei mais inglês, fiz cursos de digitação, li muito sobre tradução – a internet é um poço de informações – e, acima de tudo, prestei atenção no que os profissionais mais experientes faziam.

Foi assim que conheci a incomparável Dilma Machado, que me ensinou mais sobre tradução para dublagem do que eu podia imaginar, e o Paulo, que toda hora me passa uma dica e que dá verdadeiras palestras através do blog. E os diretores de dublagem, que sempre têm algo a sugerir e algo a mudar. E, por fim, os dubladores. Com eles eu aprendi a marcar a respiração no texto.

Com o tempo, mais portas foram se abrindo. Mais estúdios me passaram testes e eu consegui, com um pouco de esforço e organização, abandonar o Direito quase totalmente, e me dedicar somente à tradução. Foi outro desafio, porque eu tinha o que poucos advogados têm: carteira assinada, plano de saúde, vale alimentação e vale-transporte. O sonho de quem deseja uma vida estável. E em um belo dia, abri mão de tudo isso.

Valeu a pena? Valeu. Agora a vida ganhou outro ritmo. Posso trabalhar em casa. De certa forma, faço o meu horário. É outra vida. Para mim, uma vida melhor. É claro que nem tudo são flores e foram necessários muitos erros, muitas gafes, muito suor e cansaço. Mas essa é uma área surpreendente, onde as pessoas estão dispostas a estender uma mão e te ensinar.

Nesse meio tempo, estudei outros tipos de tradução, mas a tradução para dublagem me conquistou. Nunca gostei de mesmice, e os programas e filmes são sempre variados, então cada dia é uma novidade. É claro que existem programas mais divertidos e outros menos divertidos, mas os dias nunca são iguais.

Então, se você é como eu era e acordou hoje se questionando mais uma vez sobre o motivo de fazer o que faz atualmente para viver, recomendo que pense e procure. Se organize e tenha coragem. Existem muitas profissões legais por aí e você não precisa ser como eu era e trabalhar com algo que detesta. Quem sabe a tradução não é pra você? Como disse Confúcio: ‘Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida.’

Nada mais verdadeiro, mas requer coragem, esforço e disciplina. E, é claro, acreditar que você consegue.”

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4 comentários em “Guest Post #2: Da advocacia para a tradução

  1. Murillo, adorei seu post-depoimento, se é que posso chamá-lo assim. Parece que estou lendo sobre mim mesma, claro que nas devidas proporções, pois ainda não tenho tanta experiência como você na tradução para dublagem. Mas é isso mesmo. E uma coisa que gostaria de mencionar é o que os erros fazem sim parte do aprendizado. No início é difícil receber feedback dos revisores. Às vezes, os olhos deixam passar pequenos erros. Outras vezes são expressões idiomáticas que você desconhece. Mas aí, você vai assimilando, aprendendo mais e se apaixonando. E a diversidade é o mais legal. Anteriormente, traduzi uma série de presídio, hoje estou com uma série de adolescentes, amanhã, quem vai saber. A profissão de tradutor para dublagem é uma incógnita, nesse sentido. E gratificante. Parabéns, Paulo! Adorei.

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