Guest Post #1: Dublando a legendagem

Não tem jeito melhor de começar o mês do que com alguma novidade, né? Neste mês de novembro, eu trago o meu primeiro guest post aqui no Traduzindo a Dublagem. Por incrível que pareça, minha convidada especial ainda não atua muito no ramo de dublagem, mas é uma fera no ramo da irmã da dublagem no universo audiovisual: a legendagem. Quer saber quem é? Então vem 😉

Venho buscando sempre trazer outras vozes para o blog, de modo que os leitores tenham contato com opiniões dos mais diversos profissionais, mesmo aqueles que não estejam inteiramente inseridos no ramo da dublagem. Para os amantes do audiovisual, não há dúvida de que a legendagem e a dublagem, principalmente por conta dos seus respectivos defensores, vivem em uma constante relação de amor e ódio.

Para tentar apaziguar essa disputa, tive a ideia de convidar minha querida amiga Ligia Sobral Fragano que, segundo suas próprias palavras, é tradutora e revisora de legendas para cinema há dez anos, mas sobretudo uma leitora de legendas. É sócio-fundadora da Little Brown Mouse, a LBM, uma das principais empresas de legendagem do país e, mais recentemente, de dublagem também. Escreve no blog da LBM sobre os trabalhos legendados por sua equipe e sobre os caminhos da melhor área da tradução: a audiovisual!

Ligia Sobral Fragano

Ligia Sobral Fragano

Quando pedi para que ela escrevesse algo que pudesse relacionar essas duas modalidades, ela prontamente aceitou meu pedido, e o resultado você confere abaixo. Sem mais delongas, fique com o post escrito pela minha ilustre convidada! Deixe seu comentário e até o próximo post 😉

“Acho que não é segredo para ninguém que curte cinema, TV a cabo ou streaming que as produções dubladas cresceram imensamente nos últimos anos, uma verdadeira revolução. Na TV a cabo, a demanda por dublagem fez com que quase todos os canais mais relevantes dublassem seus conteúdos e que novos canais surgissem apenas com programação dublada. No cinema, as cópias dubladas foram tomando espaço, de forma que, hoje, toda programação mainstream é dublada. Em muitos cinemas, apenas são disponibilizadas sessões dubladas.

Não há discussão: é o público pagante que manda. Para além de discussões sobre as perdas em relação ao áudio original ou os hábitos de leitura dos brasileiros, o fato é que hoje muito mais pessoas têm acesso a serviços como TV a cabo e streaming e também às salas de cinema, o que é muito bom para a indústria como um todo.

Engana-se quem pensa que a legendagem perdeu tanto espaço assim; o número de produções para ambas as modalidades vem crescendo exponencialmente. Mesmo com todas as mudanças dos últimos anos, a tradição brasileira de boa aceitação de ambas as modalidades se mantém. A legendagem não está sob risco de virar um nicho cult, como previram alguns.

O que parece incomodar os adeptos das legendas, de fato, é apenas que a dublagem esteja dividindo espaço. Cada um pode se achar nesse continuum que começa com uma preocupação genuína com o nível educacional e cultural das pessoas e vai até um profundo elitismo que gostaria de manter o trigo separado do joio.

Eu venho de uma tradição familiar de mais de 40 anos de legendagem para cinema e sempre fui leitora assídua. Sempre assisti tudo com o áudio original, inclusive línguas que não conheço. Desenvolvi o hábito e a curiosidade pelo original e a reverência e crítica pelas legendas, junto com um certo dar de ombros pela regravação das vozes. Até o dia em que eu acompanhei uma gravação num estúdio de dublagem.

Foi emocionante para mim ver o diretor se envolver com o texto, testá-lo, melhorá-lo e colocá-lo em prática. Orientar os atores de forma a extrair a melhor interpretação. Gravar várias vezes para conseguir a sincronia perfeita. Na cabine de mixagem, quando as vozes dubladas se sobrepõem às imagens, parece um milagre. A palavra é: legal. Aquilo é muito legal. É, com certeza, uma forma de arte.

Como legendadora para cinema, aprendi a mais formal das cartilhas no tocante a sintaxe, vocabulário e estilo. A grande tradição da legendagem para cinema, supostamente a de qualidade mais elevada, não era de deixar muito espaço para inovações. E preciso falar com um alívio gigantesco no peito da minha satisfação em ver que o conceito de “qualidade = tradição e formalidade” está em curso de mudança.

Quem costuma ir ao cinema, mas não somente a ele, sabe que, cada vez mais, as legendas estão ousadas na sua forma e conteúdo. Isso se dá por uma atenção muito maior à língua falada. A diagonalidade das legendas, que sempre pesou muito para o lado escrito, progressivamente passa a levar mais em consideração o lado oral, e isso quer dizer prestar atenção na nossa língua viva e na nossa gente, sem contar um avanço tremendo na naturalidade do discurso.

Não há nenhum dado concreto ou estudo que prove que as mudanças nos formatos da tradução para legendas estejam diretamente relacionadas ao crescimento da dublagem, embora seja uma teoria plausível. O mínimo que podemos afirmar, porém, é que agora elas podem caminhar lado a lado e se influenciar mutuamente. Há muito tempo que as distribuidoras de filmes alinham soluções das versões legendada e dublada de um filme; ganha quem for mais criativo. E ninguém sai perdendo com isso, muito pelo contrário.

Não há dúvidas de que as duas modalidades sempre vão preservar suas características individuais e marcantes, mas a ideia é que permeiem cada vez mais uma à outra. A influência da dublagem sobre a legendagem traz inovação e um interesse renovado no nosso trabalho, uma transgressão do melhor tipo. Eu acho que chegou mesmo a hora de a gente começar a dublar a legendagem.”

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4 comentários em “Guest Post #1: Dublando a legendagem

  1. Ótimo post. É interessante quando Lígia fala que tradução para dublagem e legendagem podem caminhar lado a lado e se influenciar mutuamente. Recentemente, eu ouvi comentários de colegas de que o mesmo tradutor que faz a tradução para dublagem também está fazendo a legendagem ou vice-versa. Na minha opinião, esse processo é muito válido porque dá a ambas traduções uma sintonia do tom dos personagens, expressões, vocábulos, etc. Parabéns, Paulo!

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    • =)) Verdade, Ligia. Que bom que gostou do post!! Sim, as modalidades devem se unir e se complementar! As pessoas têm que parar com essa briga e ver que tem espaço pra todo mundo! Beijo grande =*

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