A cadeia nos estúdios de dublagem (parte 1): o tradutor e a sua função

Até os dias de hoje, muitos não sabem como o processo de dublagem é complexo e que, por trás daquelas vozes que substituem o áudio original pelo nosso áudio em PT-BR nas produções audiovisuais, existe uma gama de profissionais atuando diariamente nos mais diversos estúdios de dublagem. Existe uma longa cadeia desde que uma produção é adquirida para ser dublada até sua exibição final, mas neste post, que será dividido em duas partes, vamos explorar a que realmente nos interessa: a da cadeia que ocorre dentro das casas de dublagem e explorar a função que o tradutor exerce nela.A partir do momento em que as produções audiovisuais estrangeiras (seja para tv ou cinema) chegam aos estúdios, o que acontece? Quais são os principais agentes envolvidos nesse longo processo e suas respectivas funções até a exibição do produto final? Há três grandes etapas e como já foi dito, apenas a primeira será abordada neste post:

TRADUÇÃO – DUBLAGEM – PÓS-PRODUÇÃO

Logo que um estúdio recebe uma produção para ser dublada, inicia-se a primeira etapa (tradução/adaptação), que fica a cargo do tradutor para dublagem. Retomando um pouco do que foi dito no primeiro post do blog, o tradutor para dublagem é o profissional responsável por traduzir e adaptar as falas presentes em um produto audiovisual ( filme, desenho, documentário, etc…) e criar um roteiro para os dubladores interpretarem nos estúdios. Esse texto traduzido é feito no Microsoft Word, não sendo necessário o uso de softwares mais específicos como vemos na área de legendagem, a exemplo do Subtitle Workshop e Horse. Para evitar problemas, é comum o estúdio encaminhar um arquivo modelo para o tradutor utilizar durante o seu trabalho e reaproveitá-lo em trabalhos futuros.

Além da produção desse texto traduzido, o tradutor recebe o vídeo do produto audiovisual que irá traduzir e, na maioria dos casos, um script com as transcrições das falas na língua-fonte (inglês, francês, espanhol…). Vale lembrar que os scripts podem estar incompletos e incoerentes no momento da verificação com o vídeo. Por exemplo, no script pode aparecer um personagem dizendo uma fala, mas ao olhar o vídeo, essa fala pertence a outro personagem. Por conta disso, esse script é apenas um guia e o que dita o trabalho final do tradutor é o que está no vídeo!

O tripé do tradutor

O tripé do tradutor

Aqui faço uma breve pausa para comentar algo que ocorre de forma diferenciada no Brasil. Nos países europeus, onde a cultura da dublagem é muito forte, existe uma figura intermediária entre o tradutor e a etapa de dublagem em si, que é o dialogue writer ou adaptador. Lá fora, o tradutor dessa modalidade traduz de uma forma mais bruta, não precisando se preocupar em adaptar piadas, trocadilhos, etc, enquanto que o papel de “soltar” o texto e deixá-lo mais com a cara nativa do país para o qual o produto está sendo dublado cabe ao adaptador.

No Brasil, o papel do adaptador também cabe ao tradutor, mas muitos acabam não tomando todas as precauções necessárias, e muitas das funções que vemos na Europa realizadas pelo adaptador, são feitas no estúdio pelo diretor de dublagem em conjunto com os dubladores no momento das gravações.

Outro dado importante é que não é obrigatório para o tradutor dessa modalidade ser dublador. Há casos de dubladores e diretores que traduzem também e isso ajuda muito, já que trazem consigo os conhecimentos e preocupações da dublagem em si. É fundamental que o tradutor que pretende atuar na área se inteire o máximo possível sobre a dinâmica que ocorre dentro dos estúdios e tenha contato com os diretores de dublagem com quem for trabalhar, pois um feedback deles é fundamental para um aperfeiçoamento constante do trabalho. Mas quais são as principais preocupações que o tradutor deve ter para exercer a sua função da melhor forma possível, possibilitando um bom resultado da etapa seguinte? Afinal, o que se espera de uma boa tradução para dublagem?

Exemplo de um arquivo traduzido

Exemplo de um arquivo traduzido

1 – Naturalidade e fluidez textual

Com certeza, este primeiro item é uma das maiores queixas dos diretores de dublagem e dos próprios dubladores em relação aos tradutores do ramo. O texto traduzido/adaptado será interpretado no estúdio, então fluidez e naturalidade são cruciais para uma dublagem bem feita. O público deseja ouvir um texto natural e que soe legitimamente português e não um texto truncado, fruto do famoso “tradutorês”.

O tradutor jamais pode perder esses dois aspectos de vista, logo uma leitura cautelosa do texto em voz alta, principalmente no momento da revisão final é fundamental para que ele perceba o nível de naturalidade das falas que concebeu. Ele deve tentar produzir um texto solto, gostoso de ler e, usando um adjetivo que gosto muito, um texto verdadeiro para os dubladores, de modo que eles entrem em seus personagens mais facilmente.

2 – Encontrar soluções tradutórias corretas e adaptar o que for preciso

Sabemos que na área da tradução existe um mundo de soluções possíveis para as mais diversas situações, logo em uma produção dublada, uma mesma fala pode ser dita de várias formas sem entrar na questão de certo e errado. Entretanto, ha certos gêneros em que uma pesquisa minuciosa é importantíssima e que exigem uma maior precisão tradutória. Dependendo da produção que será dublada, é crucial que haja a tradução correta de certos termos, como em uma série médica (Grey’s Anatomy, House…) ou jurídica (Law and Order, How to get away with murder…). Em casos assim, o tradutor precisa buscar as soluções tradutórias corretas e sempre pesquisar em fontes confiáveis.

3- Boa sinalização

É a etapa feita durante a fase de revisão com o vídeo do produto. Ao longo de um produto audiovisual, existem diversas sinalizações que precisam estar presentes no roteiro traduzido como, por exemplo, pausas de fala, reações (se um personagem vomita, suspira ou tosse…) e sinalizações de vozerio (ex: pessoas em um restaurante, uma multidão furiosa, uma torcida em um estádio…). É importante que o tradutor sinalize o maior número de elementos possíveis, pois facilitará muito o trabalho do diretor e dos dubladores.

Exemplos de sinalizações em um texto traduzido

Exemplos de sinalizações em um texto traduzido

4 – Estimativa de fala

Assim como o item 3, este item é realizado durante o momento da revisão final com o vídeo. Esta preocupação também é uma grande queixa vinda dos estúdios, pois muitos tradutores do ramo não estimam o tamanho das falas durante o processo de tradução. Cabe a eles, no momento em que concebem as falas dos personagens em PT-BR, verificar se elas cabem ou não nas bocas dos personagens. Para isso, o tradutor precisa realizar uma simulação e julgar se alguma fala ficou muito curta ou muito longa.

Pessoalmente, sempre digo que essa preocupação tende a ser a que o tradutor, provavelmente, levará mais tempo para conseguir lapidar e aperfeiçoar, pois essa estimativa é algo subjetivo e não é tão precisa como se vê nos softwares de legendagem, que alegam se o número de caracteres permitidos foi ultrapassado.

5 – Sincronismo labial (lip sync)

Este quinto item está muito ligado ao item 4. O sincronismo labial é o processo no qual as falas dubladas precisam ser encaixadas perfeitamente na boca dos personagens. Isso será feito de forma mais minuciosa no estúdio com os dubladores e o diretor, mas no que diz respeito ao tradutor, é necessário haver uma maior preocupação com a boca do personagem no momento da entrada e da saída de fala. Por exemplo, se um personagem diz em inglês “I got a great present too”, poderia-se traduzir como “Eu ganhei um presente ótimo também”. Entretanto, observe que se ocorrer uma inversão e a fala em português ficar “Eu também ganhei um presente ótimo“, o sincronismo fica perfeito, pois o som da letra “o “de “ótimo” vai bater certinho com o som de “o” da palavra “too” em inglês.

Após essa primeira grande etapa, o tradutor manda por e-mail seu arquivo em word para o estúdio que o acionou para que se inicie a etapa de dublagem. Em alguns estúdios, pode ser que tenha a figura de um revisor intermediário antes que o texto traduzido chegue ao diretor de dublagem, mas nos mais antigos, o comum é o texto ir do tradutor diretamente para o diretor. Isso aumenta muito a responsabilidade do tradutor desse ramo, pois muitas vezes, os diretores não conhecem a língua estrangeira de forma aprofundada, então pode ser que erros de tradução passem despercebidos por eles.

Fique ligado para a segunda e última parte desse post na qual falarei sobre as duas grandes etapas finais do processo de dublagem! Espero você na próxima sexta-feira! 😉

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5 comentários em “A cadeia nos estúdios de dublagem (parte 1): o tradutor e a sua função

  1. Exceleste post! Trabalho com tradução, e ultimamente tenho me interessado muito pela TAV. Obrigada por essas informações !!!

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    • Obrigado pelo prestígio, Débora! Continue por aqui que sempre terá novas informações toda sexta-feita. Sinta-se à vontade para dar sugestões também de temas futuros! Grande abraço!

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  2. Muito legal o post! Já faço legendagem e estou começando na tradução para dublagem. Fiz o curso com a Dilma ano passado, e você foi dar uma palestra, falando sobre sua experiência com a dublagem. Foi muito legal! Fico aguardando a segunda parte do texto.

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    • Oi, Fabiana! Fico muito feliz que tenha gostado do nosso bate-papo! Até o próximo post e para qualquer sugestão de tema, sinta-se à vontade em fazer! Beijo.

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  3. Pingback: A cadeia nos estúdios de dublagem (parte dois): a dublagem e a pós-produção |

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